segunda-feira, 21 de agosto de 2017

A cana-de-açúcar e o clima

Em umas das minhas recentes publicações abordei as fases de crescimento da cultura da cana-de-açúcar (brotação, perfilhamento, crescimento da parte aérea e maturação). Nessa nova postagem, abordarei a interação dos fatores climáticos com o crescimento e desenvolvimento da cultura.

Por ser uma espécie C4 a cana-de-açúcar adapta-se bem em ambientes que tenham alta irradiação e temperatura do ar. Ainda, a cana é uma espécie que possui maior eficiência no uso da água (EUA), quando comparada às espécies C3.

Na região Centro-Sul do Brasil, comumente a safra ocorre no período de abril a novembro, não havendo portanto, colheita nos meses de dezembro a fevereiro. A dificuldade de mecanização é um dos fatores que fazem com que não haja colheita no verão, no entanto, o principal motivo está relacionado ao clima. Na região Centro-Sul, no verão ocorre os maiores índices de precipitação, temperatura do ar e maior radiação solar (devido ao maior comprimento do dia). Esses são os principais fatores que estimulam o crescimento vegetativo da cana-de-açúcar, ou seja, nesse período é que ocorre o intenso crescimento e acúmulo de biomassa da cultura.

No entanto, em termos de qualidade de matéria-prima, as plantas não estão aptas para a colheita, pois devido aos fatores climáticos as plantas são estimuladas ao crescimento vegetativo, tendo portanto, baixo teor de sacarose no colmo, lembrando que, a sacarose é o produto de interesse da indústria para produção de etanol e açúcar. Ou seja, nesse período ocorre maior concentração dos açúcares redutores (glicose e frutose), que são utilizados pela planta para o crescimento vegetativo (produção de novas folhas e entrenós).

Em março, com o início do outono, ocorre redução da temperatura do ar, precipitação e radiação solar, dessa maneira, as plantas entram na fase de maturação, ou seja, a cana-de-açúcar passa a aumentar a concentração de sacarose no colmo e a reduzir a concentração dos açúcares redutores, reduzindo dessa maneira, o crescimento vegetativo. Dessa maneira, a maturação e o acúmulo de sacarose é maior nos meses de junho a agosto. A partir de outubro, com o retorno das chuvas e com o aumento da temperatura, as plantas reiniciam o crescimento vegetativo, reduzindo gradativamente a concentração de sacarose no colmo (Figura 02).

Percebe-se portanto, que na cultura da cana-de-açúcar é fundamental que haja um período de estresse, que estimule as plantas a reduzirem e/ou cessarem o crescimento vegetativo e acumular sacarose nos colmos. Na prática ocorre a interação dos diversos fatores climáticos citados acima, no entanto, dentre esses fatores, o déficit hídrico é o mais importante no processo de maturação da cana-de-açúcar.

Em relação a qualidade tecnológica da cana-de-açúcar, mais especificamente em relação a qualidade do caldo; Brix, Pol e ATR são os três indicadores mais utilizados para avaliar se a cana está ou não no ponto de colheita (madura).

O caldo é composto principalmente por água (75 a 90%) e sólidos solúveis, que são açúcares e não açúcares, sendo que, o Brix representa a quantidade de sólidos solúveis totais no caldo. Os sólidos solúveis são constituídos basicamente de açúcares (sacarose, frutose e glicose) e podem representar entre 15 a 20% do caldo e outros compostos como aminoácidos, gorduras, minerais são encontrados em baixas concentrações (menos que 1%). Portanto, o Brix é uma avaliação indireta da quantidade de açúcares presente no caldo, sendo que, quanto maior o Brix, mais madura está a cana. O valor de referência para o Brix é 18°, em que valores superiores a 18° indica que a cana já está no ponto de colheita.

Já a Pol é um parâmetro mais confiável, pois representa a porcentagem em massa de sacarose aparente, ou seja, nesse parâmetro é avaliado apenas a sacarose, que é o açúcar de maior interesse da indústria. O valor de referência para a Pol é de 14, ou seja, quanto maior for o valor da Pol mais elevado será os teores de sacarose.

Por fim, o ATR (açúcares redutores totais) indica a quantidade total de açúcares na cana-de-açúcar e essa unidade é expressa em kg ton (kg de açúcar por tonelada de colmo). O ATR determina o valor que a indústria pagará pela cana-de-açúcar. Na última safra (16/17), o valor médio foi de 133 kg de ATR por ton de colmo (Figura 1), sendo que, a variação mensal dos valores pode ser visualizada na Figura 02.

Figura 01 - Série histórica dos valores de ATR da safra 08/09 até 17/18

Figura 02 - Valores de ATR ao longo das safras 14/15 e 15/16.




segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Por que o plantio direto é pouco utilizado na cana-de-açúcar?

A cana-de-açúcar é considerada uma cultura semi-perene, pois a cada quatro/cinco anos ocorre o replantio da cultura, termo esse conhecido como "reforma do canavial". A reforma do canavial ocorre devido a redução da produtividade ao longo dos cortes, sendo que, chega um momento em que a produtividade do canavial se torna tão baixa, que fica economicamente inviável mais um ano de cultivo, sendo necessário reformar o canavial. Dessa maneira, quanto mais novo o canavial, maior será a produtividade da cultura.

E aí que está o problema, praticamente toda área de reforma de cana-de-açúcar utiliza o sistema de preparo convencional do solo, sistema esse, que vem sendo deixado de lado no sistema de produção das culturas graníferas, tanto é, que hoje no Brasil, aproximadamente 30 milhões de hectares utilizam o sistema de plantio direto.

Os inúmeros benefícios do sistema plantio já é bem conhecido, que vão desde as propriedades químicas, físicas e biológicas do solo, bem como, no sistema de conservação do solo e no próprio manejo da água. Em relação as propriedades físicas do solo, pode-se citar a estruturação do solo devido a formação de macroagregados do solo, resultando no aumento da infiltração de água no solo e aumentando à resistência do solo a compactação. Em relação as propriedades químicas, o plantio direto proporciona a ciclagem de nutrientes e o mais importante, o aumento do teor de matéria orgânica no solo, que por sua vez, aumenta a capacidade do solo em armazenar água e reter nutrientes. Quanto a biologia do solo, o plantio direto melhora a qualidade do solo em três aspectos, na quantidade, diversidade e atividade dos microrganismos do solo.

Os principais fatores que contribuem para pouca utilização do sistema plantio direto está relacionado a correção da fertilidade do solo (calagem, gessagem e fosfatagem), controle de pragas do solo e descompactação do solo e em alguns casos, controle de plantas daninhas.

Em relação a correção da fertilidade do solo, a cana-de-açúcar ao longo dos sucessivos cortes extrai grande quantidade de nutrientes do solo. Por exemplo, em um ano de cultivo, a extração de nutrientes em um hectare se dá na seguinte sequência: K (325 kg ha-1); Ca (226,5 kg ha-1); N (179,0 kg ha-1); Mg (86,9 kg ha-1) e P (25,4 kg ha-1). Dessa maneira, ao longo de quatro ou cinco anos de cultivo a extração de nutrientes é muito intensa, ocasionando a redução da fertilidade do solo, sendo necessário portanto, a reforma do canavial para reconstrução da fertilidade do solo. Como a extração de nutrientes é muito grande, torna-se muito difícil a reposição desses nutrientes somente com a adubação de cobertura, com especial destaque ao controle do pH através da calagem. No entanto, já existem diversos estudos que demonstram que é possível ter canaviais com alta longevidade e produtivos sem a reforma do canavial, como também, diversos estudos com o uso do plantio direto na cultura da cana-de-açúcar.

O controle de pragas também é um fator que contribui para a adoção do preparo convencional do solo, dependendo da praga e da infestação, o controle mais eficiente é a destruição das soqueiras. Hoje as principais pragas de solo da cultura da cana-de-açúcar são: Migdolus (Migdolus fryanus), Bicudo da Cana-de-Açúcar (Sphenophorus levis), Cupins, Nematóides, entre outros. A destruição das soqueiras ainda é muito utilizada porque essas pragas podem atingir até 2,0 m de profundidade, e por isso, o preparo convencional auxilia em dois tipos de controle. O primeiro refere-se ao controle direto da praga com implemento agrícola e também pela exposição dessas pragas aos seus predadores. O segundo, e talvez o mais importante, é a aplicação de inseticidas de alto poder residual no solo de modo a controlar essas pragas por um grande período. Umas das técnicas mais utilizadas é a adaptação de tanques de inseticidas em grades ou subsoladores, em que, ocorre a aplicação do produto no disco de corte ou na haste, objetivando-se a aplicação em profundidade de modo a proteger o sistema radicular da planta.

E por fim, destaca-se a compactação do solo, esse que tem sido apontado por diversos pesquisadores uma das principais causas da baixa longevidade dos canaviais brasileiros. Se considerarmos um canavial em que a reforma é realizada a cada cinco anos, nesse período dependendo dos tratos culturais utilizados na cultura, o número de operação tratorizadas pode variar de 20 a 30 (adubação de cobertura, aplicação de herbicidas, colheita, transbordo, recolhimento da palha, etc). Por isso, é de extrema importância que o produtor faça o controle de tráfego, tecnologia esta que já está bem presente na cultura da cana-de-açúcar em todo o processo de produção (preparo de solo, plantio, tratos e colheita). Além do controle do tráfego de máquinas, deve-se atentar também ao momento de entrada da máquina na lavoura, pois, em muitos casos, a pressão da indústria por matéria-prima, faz com que as técnica agronômicas sejam realizadas de maneira incorreta, por exemplo, o trânsito de máquina em solos úmidos (após uma chuva), pisoteio de soqueiras, etc.

Faz-se importante ressaltar que apesar das dificuldades de implantação do sistema plantio direto na cultura da cana-de-açúcar, nos últimos anos vários estudos com plantio direto na cana-de-açúcar tem demonstrado que é possível o uso deste sistema na cultura. Além do plantio direto, o cultivo mínimo é outro sistema que também tem sido bastante utilizado na cultura, principalmente em plantio após cultivo de amendoim, crotalária, soja, entre outras.